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Kabsh Qrunfol – Wearing Cloves

Exposição Kabsh Qrunfol – Wearing Cloves

Artista: Mirna Bamieh

Curadoria: Jule Kurbjeweit

Abertura: 25 de junho às 18h

Patente até 5 de setembro de 2026

Horário: de quarta a sábado das 15h às 19h

© Qabsh Qrunfol, film stills, 2026

Āwīha, cravinho, teto sobre a minha cabeça, as minhas asas

Em certas regiões da Palestina, antes de uma noiva deixar a casa da sua família, as mulheres da sua comunidade reúnem-se para lhe fazer um colar de cravinhos, numa celebração de henna: uma festividade pré-nupcial que entrelaça criação, música e cerimónia. O colar contém uma prece encerrada, uma lanterna de contas que simboliza a luz que a noiva levará consigo para o futuro, e cravinho – historicamente valorizado como o “ouro das especiarias” pelas suas qualidades medicinais e conservantes. Carregando as várias bênçãos, o colar torna-se uma lembrança tecida com proteção, prosperidade e o desejo coletivo de uma vida em florescimento. Esta tradição, atualmente em vias de desaparecimento, é o cerne da nova instalação de Mirna Bamieh. A obra dá continuidade ao seu projeto de longa duração Palestine Hosting Society, que acompanha as políticas do desaparecimento – de rituais, alimentos, geografias – e as comunidades que os mantêm vivos perante o apagamento. Estas práticas tornam-se atos de preservação e resistência tanto como de celebração.

Kabsh Qrunfol, Wearing Cloves reúne grandes esculturas cerâmicas suspensas, pinturas e um filme realizado na Palestina que acompanha mulheres que se juntam através do trabalho partilhado e do canto, encordoando o colar da noiva. As esculturas cerâmicas reinventam este colar nupcial, transpondo-o para composições de escala ampliada. Mais do que uma representação literal, alteram a escala, o material e a estrutura, preservando a presença cerimonial da forma. Evocando colares de contas devotos presentes em diferentes religiões, sugerem também o colar enquanto objeto de oração repetida, uma dimensão refletida nas canções do seu fazer, que incluem invocações reiteradas.

Na obra de Bamieh, este ritual torna-se uma lente para algo maior: as estruturas comunitárias que sustentam as pessoas em momentos de transição pessoal e de violência política continuada, o conhecimento transmitido pelas mulheres e a persistência de preservar e renovar a tradição.

Um casamento é simultaneamente uma chegada e uma despedida. Assinala não apenas a união de duas pessoas, mas a reafirmação dos laços de toda uma comunidade – laços que são, em grande medida, cuidados pelas mulheres. O colar de cravinho, preparado coletivamente, é um emblema de uma manta mais ampla – um nó entre muitos. É acima de tudo uma dádiva: feito em conjunto, o seu valor reside naquilo que movimenta entre as pessoas.

O filme apresenta novas mhaha (المهاهاة) – cânticos tradicionais de mulheres palestinianas que oscilam entre o lamento e a celebração, e transportam a emoção coletiva através de chamamentos improvisados e prolongados.

Āwīha, esta é a minha canção, cantei-a com a terra,
Āwīha, com cravinhos a adornei

Escritas especificamente para o filme, estas novas canções tratam o colar como um objeto íntimo de oração e um símbolo expansivo, situado entre abrigo e voo, ferida e proteção. Chamando a terra; chamando aqueles que partiram, foram expulsos ou se perderam, e cujo regresso continua a ser esperado; chamando os próprios cravos-da-índia que iluminam e curam corações feridos – as canções criam espaço para o luto, para que haja também espaço para a cura, a alegria e o futuro.

Āwīha, ó céu, vasto e luminoso,
Āwīha, caminho na tua direção, protegida pelo meu colar

E é através deste trabalho partilhado de enhebrar passado, presente e futuro num mesmo fio contínuo que futuros mais luminosos se tornam possíveis.

Mirna Bamieh explora a política do desaparecimento e a produção de memória ao analisar as preocupações sociais e as limitações das comunidades palestinianas perante os dilemas políticos contemporâneos. Formada em Artes Visuais, Artes Culinárias e Psicologia/Sociologia, combina comida e storytelling para desenvolver trabalho socialmente envolvido através da Palestine Kunsthausociety, um projeto de arte viva que fundou em 2018. A partir de 2019, com a necessidade de olhar para a história pessoal em relação com o coletivo, a artista tem também refletido sobre o processo de fermentação através de texto, som, cerâmica, desenho e vídeo, incorporados em instalações interativas site-specific.
Bamieh apresentou performances e expôs o seu trabalho em vários espaços de distinção, como Tate Modern, Kunsthaus Zurich, Sharjah Biennial, Aichi Triennial, entre muitos outros. Foi também destaque em diversos e importantes meios de comunicação, entre os quais estão Frieze, New York Times, Umbigo, Mousse e Mold Magazine.

Jule Kurbjeweit é curadora e gestora de projetos culturais. O seu trabalho centra-se na interseção entre arte e cuidado coletivo, onde o coletivo é entendido como mais-do-que-humano. Trabalha noções de alteridade e mutualidade, num jogo entre poética e política.
A sua experiência curatorial e profissional abrange exposições, residências e publicações. Foi residente curatorial na Cité internationale des arts, em Paris (2024), em parceria com a delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian, em Sant Andreu Contemporani, em Barcelona (2025), e acompanhou a residência Sounds of Places no Wonder Cabinet, em Belém, Palestina (2024). Tem curado exposições individuais e coletivas e publicado artigos em plataformas como o Público, a Shifter e a secção “Read, Watch, Listen” da Fundação Calouste Gulbenkian. Editou e publicou Edible Ecologies. An Artists’ Recipe Book e encontra-se atualmente a editar um toolkit para o projeto europeu Institution(ing)s.