Skip to content Skip to footer

CICLO “REPARAÇÕES”: O FUTURO SUSTENTÁVEL TERÁ DE SER “HISTORICAMENTE JUSTO”?

CICLO “REPARAÇÕES”: O FUTURO SUSTENTÁVEL TERÁ DE SER “HISTORICAMENTE JUSTO”?

Um programa de investigação com curadoria de Ângela Benoliel Coutinho

15 de Dezembro, 2025, às 18h

Oradores convidados: Rui Vieira Nery, Cristina Sá Valentim, Júlio Brechó

Hangar – Centro de Investigação Artística

Ao longo de séculos, as relações entre estados europeus e povos africanos foram caracterizadas por agressões a diversos níveis, que incluíram a deportação e a escravização de milhões de pessoas, o desmantelamento de instituições, a pilhagem e a destruição de objectos, artefactos e materiais vários. Restou o corpo, a voz e a energia de cada ser humano, que não é possível controlar cabalmente, e nem calar.

Tal como outros povos em contextos de opressão, os Africanos e Afro-descendentes investiram grandemente a expressão da sua energia criativa, e do seu compromisso com a alegria de viver, nos seus corpos musicais e dançantes, nas suas performances individuais e colectivas.

O legado das práticas expressivas africanas e afro-descendentes tem uma qualidade artística cada vez mais reconhecida em diversas paragens no mundo e junto a múltiplos públicos, portadoras que são de uma força anímica e psíquica inquestionáveis.

Nesta primeira mesa-redonda, iremos conversar acerca das condições em que têm existido e se têm manifestado estas práticas expressivas em Portugal, assim como as acções levadas a cabo que possam ser consideradas como reparatórias.

Ângela Benoliel Coutinho obteve o doutoramento em História da África Negra Contemporânea pela Universidade de Paris I – Panthéon -Sorbonne, em 2005, da qual resultou a obra Os dirigentes do PAIGC (1956-1980), pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Foi docente no ensino superior em Cabo Verde e em França, e tem participado na organização de diversos colóquios e seminários internacionais. Foi coordenadora científica ou investigadora em projectos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, a Fundação Calouste Gulbenkian, o CODESRIA (Senegal) e a Fundação Rosa Luxemburgo (Alemanha). Publicou na Oxford University Press, e em revistas indexadas, tais como a REF e a Afrika Zamani, com um total de 17 publicações dedicadas à luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

Tem também colaborado com a sociedade civil em projectos de salvaguarda do patrimóniohistórico-cultural, nomeadamente, com a Fundação Amílcar Cabral e Fundação António Canuto (Cabo Verde), com o CIDAC (Portugal) e com a “Cape Verde Jewish Heritage Project” (EUA), mediante financiamentos do World Monuments Fund e da BREDA UNESCO. É co-autora do projecto “Cinema-Debate Amílcar Cabral” (2022). Desde 2021 é autora de programas de História de África na RDP-África (Portugal) e em 2025 fez a curadoria da exposição “Cabo Verde Nações Unidas 50+”.

Julio Brechó é um artista, músico, produtor e ativista cultural com uma formação diversificada e um trajeto marcado pela fusão de culturas. Ele estudou Produção Cultural e Eventos EAT Luis Carlos Ripper e na CETEP Adolfo Bloch, Cursou a Escola de Teatro CETEP Quintino e integrou a Escola de Teatro Nós do Morro, um renomado projeto cultural na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Essa formação não apenas o conectou profundamente com as artes cênicas e a produção de eventos, mas também lhe deu uma base sólida para levar adiante a valorização da cultura afrodescendente.

Julio construiu sua trajetória entre o Brasil, a Holanda e, atualmente, Portugal. Com uma forte ligação às raízes afro-brasileiras do samba e do Carnaval. Como guia, palestrante e coordenador no projeto Carnaval Experience, em parceria com a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, Julio mergulhou na rica história do Carnaval e dos enredos que destacam a herança africana. Ele viveu por três anos na região da Pequena África, na Gamboa, e aprofundou-se nas narrativas afro-brasileiras para compartilhá-las em passeios culturais, mostrando a conexão histórica entre a África e o Brasil.

Atualmente em Lisboa, ele atua como um ponte viva entre as tradições afro-brasileiras e o cenário cultural português, trazendo a autenticidade da cultura de rua do Brasil para as ruas de Lisboa. Através de iniciativas como o Lisbloco e o Samba Colaborativo, Julio reafirma a importância de viver a cultura na rua de forma genuína, celebrando a contribuição afrodescendente tanto no samba quanto no Carnaval.

Cristina Sá Valentim é antropóloga social e cultural, investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e docente convidada no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra. Através de abordagens que cruzam a antropologia com a história, a etnomusicologia, os estudos culturais e pós-coloniais, tem investigado sobre a relação entre a música angolana, o trabalho forçado colonial africano, os patrimónios, o ambiente e a reparação histórica, tendo realizado trabalho de campo em Portugal e em Angola.

Atualmente, coordena o projeto “Archives of Lived Songs” (CEEC-FCT), que se foca em coleções sonoras e musicais produzidas durante a ocupação colonial portuguesa em várias regiões rurais de Angola. Em 2022, publicou o livro “Sons do Império, Vozes do Cipale”. Canções Cokwe e Memórias do Trabalho Forçado nas Lundas, Angola (Luanda: FAAN), que resultou da sua tese de doutoramento ter sido galardoada com o Prémio Internacional de Investigação Histórica “Agostinho Neto”.